Cebolinha e os dias de chuva 

Há dias em que o céu amanhece cinza e parece dizer baixinho: hoje, o mundo vai andar mais devagar. São os dias de chuva. E, quando ela chega, olho para Cebolinha e penso em tudo o que já vivemos juntos. Ele tem 16 anos e 8 meses e ficou cadeirante aos quatro anos. Desde então, aprendi com ele que uma cadeira não define um corpo — muito menos uma história.
Nos dias de sol, sua cadeirinha ganha as ruas. Quando chove, nossos passeios mudam de endereço: vamos para lugares fechados, onde ele pode continuar sentindo cheiros, observando pessoas e descobrindo o mundo. Cebolinha me ensinou que existem muitas maneiras de passear e que, quando um caminho se fecha, podemos encontrar outro.
Eu conto os anos, enquanto ele conta os momentos. E talvez seja essa a sua maior lição: a felicidade não depende de um caminho perfeito, mas de continuar caminhando. Quando chove, não penso no passeio que perdemos. Penso naquele que ainda podemos inventar. Porque amar também é isso: mudar o caminho sem desistir de chegar.. 
