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Coluna Histórias de Pets: O reencontro de Jorge e Maria Bonita - Por Angélica Rizzi
Quem disse que o tempo apaga a capacidade de recomeçar?
Por Guto Villanova
Publicado em 21/10/2026 20:52 • Atualizado 21/10/2026 20:56
Mundo Pet
Histórias de Pets: O reencontro de Jorge e Maria Bonita
Por Angélica Rizzi
A casa, antes preenchida pelas risadas e pelo caminhar lento de dona Helena, havia se tornado um labirinto de silêncios. Aos 70 anos, Jorge sentia que o relógio da sala batia mais alto, marcando não apenas as horas, mas também o vazio deixado pela ausência. Por meses, viveu no automático: café, jornal e o olhar fixo na janela que dava para a rua, onde nada parecia acontecer.
Foi num domingo chuvoso que, quase por impulso, Jorge parou diante do abrigo municipal. Não planejava adotar um animal. Queria apenas ver movimento e sentir a vida ao seu redor. Foi então que a viu.
Encolhida num canto de um canil compartilhado, havia uma poodle branca, de pelos encardidos pelo tempo e olhos que pareciam guardar uma antiga doçura. Ela também era velha, como ele. Caminhava com cautela, como se o chão fosse um território totalmente desconhecido.
— Essa é a última da ninhada que ninguém quis, seu Jorge — disse o funcionário, talvez percebendo a hesitação do homem. — Ela está aqui há 10 anos.
Jorge estendeu a mão. A cachorrinha, em vez de latir ou recuar, aproximou o focinho frio de seus dedos e soltou um suspiro profundo. Naquele instante, não houve a euforia típica de um cãozinho mais jovem, mas sim o reconhecimento silencioso entre dois seres que já haviam atravessado muito da vida. Ele a levou para casa. O nome veio como uma homenagem, uma forma de devolver um pouco de cor e força aos dias cinzentos: Maria Bonita.
No começo, Maria Bonita era tímida. Dormia no tapete, longe da cama. Aos poucos, porém, o silêncio da casa começou a ser preenchido por ruídos gentis: o clique das unhas no assoalho, o focinho que cutucava a perna de Jorge na hora do almoço e o ronco baixinho durante as tardes.
Hoje, os dois são inseparáveis. Quando Jorge se acomoda na poltrona para ler, ela se aninha a seus pés. Quando ele vai à padaria, Maria Bonita o segue, com a elegância de uma dama em seu passeio matinal.
Ela não é apenas uma cachorra. É a companhia que faz Jorge abrir as cortinas todas as manhãs, o pequeno ser que devolveu movimento aos seus dias e presença aos espaços antes ocupados pela saudade.
A história dos dois nos lembra que nunca é tarde para acolher um novo encontro, que o afeto não tem idade e que a vida ainda pode nos surpreender quando acreditamos que tudo já aconteceu. Maria Bonita não devolveu Helena a Jorge. Mas, de algum modo, trouxe de volta o Jorge que ele pensava ter perdido para sempre.

Sobre a Autora
Angélica Rizzi é jornalista (MTB 9298), cantora e compositora (OMB 19155), produtora cultural (Registro 4711), microempresária e editora independente (ISNI: 0000 0053 0534 174 | Associada CBL: 160.720).
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